Autonomia começa escolhas: o que crianças aprendem quando adultos deixam espaço para tentar

Vestir uma peça de roupa com ajuda, guardar brinquedos, escolher uma história e experimentar uma tarefa antes de pedir socorro: situações aparentemente simples fazem parte do aprendizado da autonomia na infância. Em um cotidiano marcado por pressa, telas e agendas cheias, encontrar tempo para que crianças experimentem essas pequenas decisões pode ser um desafio para famílias e educadores.

A discussão vai muito além da capacidade de executar tarefas sozinho. Envolve linguagem, tolerância a contratempos, percepção de limites, convivência e oportunidades para participar da própria rotina. A primeira infância, que se estende até os 6 anos, é um período decisivo para o desenvolvimento dessas competências. Segundo o UNICEF, as experiências vividas nessa fase ajudam a estabelecer bases para a aprendizagem, a saúde e o bem-estar emocional ao longo da vida.

A experiência de quem acompanhou a primeira infância
A pedagoga Paloma de Paiva Perez Sala Santana reúne experiência profissional na Educação Infantil desde 2003, com passagens por instituições particulares e pela rede municipal de São Paulo, onde seu currículo registra atuação de 2007 a 2024. Formada pela Universidade de Santo Amaro (UNISA) em 2004, trabalhou com crianças de zero a seis anos em atividades lúdicas, de desenvolvimento motor e socioemocional e de incentivo à autonomia.

Sua trajetória reúne ainda aprovações em concursos públicos municipais para funções ligadas à Educação Infantil, incluindo Professor de Desenvolvimento Infantil, Professor Adjunto de Educação Infantil e Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Os registros mostram uma carreira construída em torno do trabalho pedagógico com crianças pequenas, em diferentes ambientes escolares.

Esse percurso ajuda a iluminar uma distinção importante: incentivar autonomia não significa abandonar a criança diante de uma dificuldade. A intervenção do adulto continua fundamental, mas pode assumir a forma de demonstração, acolhimento, perguntas e apoio proporcional à idade, em vez de executar imediatamente toda tarefa por ela. Não há uma idade única para todas as conquistas, e o ritmo de desenvolvimento varia de criança para criança.

Brincar também é aprender
O papel da brincadeira nesse processo é reconhecido oficialmente. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece seis direitos de aprendizagem na Educação Infantil: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. A organização pedagógica da etapa é estruturada em campos de experiências, e não na antecipação sistemática de conteúdos do Ensino Fundamental.

Na prática, jogos de faz de conta, histórias recontadas, experiências com objetos e brincadeiras em grupo criam oportunidades de negociação, elaboração de estratégias e comunicação. O UNICEF também destaca que o brincar e as interações com adultos de referência participam do desenvolvimento físico, cognitivo e emocional desde os primeiros anos.

Na formação continuada, Paloma participou de cursos da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo voltados a narrativas infantis, leituras e recontos e mídias no universo infantil. Em 2010, concluiu a formação “Percursos de Aprendizagens na Educação Infantil: Leituras e Recontos”, de 20 horas. As capacitações integram um histórico profissional em que linguagem, ludicidade e participação infantil aparecem como temas recorrentes.

Entre proteger e permitir
O cuidado com a segurança não precisa se opor à independência. Ambientes preparados, atividades adequadas à idade e supervisão adulta permitem que a criança explore possibilidades sem ser exposta desnecessariamente a riscos. Paloma também concluiu uma formação em primeiros socorros do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar de São Paulo, em 2024, e obteve uma certificação em ressuscitação cardiopulmonar, primeiros socorros e uso de desfibrilador em 2025.

Para as famílias, a questão central não é transformar cada momento em uma atividade dirigida ou medir as crianças por uma lista rígida de conquistas. É criar oportunidades regulares de participação: deixar que contribuam em pequenas tarefas, ouvir suas escolhas, oferecer alternativas apropriadas e reconhecer que a aprendizagem também inclui tentativas que não saem como planejado.

Quando escola e família valorizam essas experiências, a autonomia deixa de ser tratada como uma cobrança precoce por desempenho. Torna-se parte de um processo gradual, construído nas relações e no cotidiano — com adultos presentes para orientar, proteger e, quando necessário, permitir que a criança tente novamente.

Por: Nathalia Carvalho

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