Rasante é um voo de proximidade. É quando o corpo escolhe permanecer perto da terra para reconhecer seus contornos, sentir o calor das pedras, acompanhar o curso das águas e ouvir aquilo que só existe quando se desacelera. O novo álbum de Fatel, que chega nesta via ONErpm, em todas as plataformas digitais, nasce dessa imagem. Em dez faixas, o cantor, compositor e poeta baiano constrói uma obra em que a canção se torna território de encontro entre memória, desejo, palavra e pertencimento, com participações de Josyara, Guigga, Ivan Sacerdote, Grupo Ofá, Cicinho de Assis e Mário Soares.
“O Rasante é pra mim um símbolo de resistência. Um trabalho feito com muita calma, uma música feita com gente de verdade, de uma poesia e de uma musicalidade que não busca retratar o Nordeste ou o Sertão, mas falar e cantar o Brasil a partir dele”, afirma Fatel.
Natural de Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, Fatel faz da experiência sertaneja não um tema, mas uma linguagem. Sua música evita tanto o regionalismo ilustrativo quanto a tentativa de universalizar-se apagando as próprias origens. Em Rasante, o sertão não aparece como cenário nem como nostalgia: está presente na maneira como as melodias respiram, na força das imagens poéticas e na convivência orgânica entre tradição e invenção.
Produzido artisticamente por Fatel e Tarcísio Santos, o álbum percorre diferentes paisagens sonoras sem abandonar sua unidade estética. Cordas, sopros, sanfona, percussões afro-brasileiras e uma instrumentação cuidadosamente econômica sustentam canções em que o silêncio tem tanto peso quanto o som. Cada arranjo parece nascer da própria necessidade da música, recusando excessos para deixar que a palavra ocupe o centro.
Essa escolha revela um compositor interessado menos em demonstrar virtuosismo do que em criar atmosfera. Em “Aprender a Nadar”, a voz encontra abrigo no violão e nas cordas, transformando a delicadeza em gesto inaugural. “Não Negue o Medo, Nego” amplia o horizonte com sopros, guitarra e percussão, convertendo a vulnerabilidade em afirmação. Em “Trilhas de Corte”, a participação de Guigga acrescenta novas camadas à reflexão sobre identidade e deslocamento.
Ao incluir “Cobra Coral”, de Waly Salomão e Caetano Veloso, e “Olha pro Céu”, de Luiz Gonzaga e José Fernandes de Carvalho, Fatel estabelece um diálogo com diferentes linhagens da canção brasileira. As releituras funcionam tanto como homenagem e um sinal de reverência como também são incorporadas ao universo do álbum com bastante propriedade , reforçando a ideia de continuidade entre tradição e criação contemporânea.
As participações especiais ampliam esse percurso. Josyara empresta sua voz à delicada “Nós Dois”; Ivan Sacerdote colore “Cobra Coral” com o clarinete; Guigga divide a composição e a interpretação de “Trilhas de Corte”; Cicinho de Assis e Mário Soares aproximam o disco das sonoridades do interior nordestino em “Canto de Madrugou”; enquanto o Grupo Ofá imprime uma dimensão ritualística a “Mãe Menina”. Em nenhum momento os convidados aparecem como ornamento. Cada presença expande a paisagem proposta pelas canções.
“A escolha das participações para o álbum foi baseada na forma como a gente faz as coisas, que é com muita verdade, trazendo quem está perto e quem a gente admira, como o Guigga, com quem escrevi ‘Trilhas de Corte’, parceiro de alguns anos. Eu penso no Rasante também como um disco de apresentação, então trazer Josyara, que é uma conterrânea, pra contar essa história faz todo sentido, porque ela é a maior representante da música brasileira no país vindo de Juazeiro, e eu digo isso com muito orgulho. Todas as outras participações são de pessoas de quem eu sou muito fã e que trazem um peso para um disco como esse: baiano, feito por pessoas do interior“, comenta Fatel.
Mais do que reunir dez faixas, Rasante apresenta um momento de maturidade artística. A produção precisa, os arranjos elegantes e a consistência da escrita reafirmam Fatel como um dos compositores de sua geração que melhor compreendem a canção como espaço de invenção poética. Seu trabalho dialoga com a tradição sem se prender a ela e aponta para uma música brasileira profundamente conectada às suas raízes, mas inteiramente voltada para o presente.
Em tempos de velocidade e excesso, Rasante escolhe outro caminho. Aproxima-se da terra, da palavra e do silêncio. É um disco que convida o ouvinte não apenas a escutar, mas a habitar cada canção.
Fatel
Compositor, músico, intérprete e poeta baiano(De Juazeiro), já lançou 2 EPs, 2 álbuns e tem mais de 40 músicas autorais gravadas, produzidas e lançadas de maneira independente.
Paralelo à sua carreira solo, FATEL também fundou a banda “A trupe poligodélica”, onde atua como compositor, intérprete e instrumentista, desenvolvendo um trabalho experimental e coletivo com outros músicos do Vale do São Francisco, já tendo dois álbuns lançados pelo grupo. Além disso, integra o grupo “Outras Vozes”(Salvador-BA) , que reúne artistas do Interior e da Capital.
Seu trabalho vem sendo acompanhado e repercutido com destaque na cena musical contemporânea, sendo elogiado e apontado em entrevistas por nomes consagrados da MPB, como Tom Zé e Margareth Menezes, como promissor talento da música brasileira atual. Seu último Single “Deus que me segure agora eu vou me apaixonar”, uma composição sua e gravada em parceria com a cantora Ana Barroso, foi lançado em 2023 e já conta com mais 120 mil plays nas plataformas musicais, além de ter sido uma das canções escolhidas para fazer parte da trilha sonora original do “O auto da compadecida 2”, lançado em dezembro de 2024 nos cinemas de todo o Brasil. No final de janeiro, Fatel lançou o seu primeiro trabalho gravado ao vivo, e está em pré produção do projeto de seu mais novo álbum, “Rasante”.
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