Aos 80 anos, João Bosco tratou de multiplicar aquilo que a música lhe deu em doses generosas ao longo da carreira: amigos. Alguns de longa data, companheiros de muitas histórias; outros novos, de gerações que cresceram ouvindo suas canções e agora entram em seu universo para reinventá-las. Esses encontros dão o tom de Amigos Novos e Antigos (Som Livre), álbum que reúne 17 faixas e uma constelação de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Ivete Sangalo, Tiago Iorc e Zeca Pagodinho.
Os convidados de João emprestam suas vozes e instrumentos à renovação de uma obra que permanece inquieta e contemporânea. São os parceiros de uma vida, os intérpretes que ajudaram a escrever a história de suas canções e uma nova geração que chega para acrescentar outras matizes a esse repertório. Amigos Novos e Antigos transforma a celebração de mais de cinco décadas de carreira em uma grande roda musical. O álbum, com regravações de clássicos do cancioneiro de João, chega às plataformas digitais no próximo dia 25.
A primeira parte do projeto chegou às plataformas em julho. Agora, o público conhece o álbum completo. “Chegar aos 80 cercado de pessoas que fizeram parte da minha história e de artistas que continuam levando essa música pra frente é um presente. Este disco nasceu da vontade de agradecer. Cada canção é uma conversa, um abraço, um reencontro”, resume João Bosco.
O título do álbum, inspirado na composição de João Bosco e Aldir Blanc, sintetiza o espírito do projeto. Mais do que uma coleção de duetos, Amigos Novos e Antigos é um álbum sobre encontros: entre diferentes gerações, entre memória e presente, entre compositores e intérpretes, entre canções que o Brasil aprendeu a amar e novas possibilidades de ouvi-las.
O percurso começa e termina com “Odilê Odilá”, em dueto com Martinho da Vila, estabelecendo uma espécie de moldura para a celebração. Entre esses dois momentos, o álbum atravessa diferentes territórios da obra de João Bosco. Em “Incompatibilidade de Gênios”, um de seus clássicos em parceria com Aldir Blanc, João divide a cena com Chico Buarque, em arranjo que conta ainda com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba. Em “Sinhá” (parceria de João e Chico), o dueto com Caetano Veloso acrescenta novas camadas à canção e reforça a cumplicidade entre dois dos maiores compositores da história da MPB.
A ancestralidade e a força rítmica da obra aparecem em “Nação”, com o bandolim de dez cordas de Hamilton de Holanda, enquanto Cesar Camargo Mariano imprime sua assinatura nos teclados em “Casa de Marimbondo”. Na faixa-título, a nova geração se faz presente, com Bruna Black e Mestrinho unindo suas vozes à de João. E “Jade”, por sua vez, aproxima Jota.Pê da clarinetista israelense-americana Anat Cohen.

O álbum também reserva espaço para encontros afetivos. Zeca Pagodinho traz sua malícia para “Siri Recheado e o Cacete”, parceria de João Bosco e Aldir Blanc lançada originalmente em 1980. Mart’nália põe sua ginga em “Kid Cavaquinho”, enquanto Tiago Iorc participa de “Perfeição”, parceria de João com seu filho Francisco Bosco.
Em “Quando o Amor Acontece”, o cantor reencontra Mestrinho; Vanessa Moreno e Jaques Morelenbaum se unem em “Memória da Pele”; e Pedro Mariano e Rafa Mariano participam de “O Bêbado e a Equilibrista”, uma das canções mais emblemáticas do repertório de João Bosco e Aldir Blanc, na interpretação consagradora de Elis Regina. Essa faixa foi gravada em São Paulo, com produção do tecladista Marcelo Maita e acompanhamento da banda de Pedro Mariano.
A nova geração também está presente em “Papel Machê”, com Silva, e “Corsário”, que ganha a voz de Ivete Sangalo. A faixa “Boca de Sapo”, por sua vez, aparece sem convidado, permitindo que João Bosco revisite sozinho uma composição de 1979, reafirmando a força singular de sua interpretação.
Aldir Blanc presente. Ao longo do disco, a presença de Aldir Blanc (1946-2020) continua a ecoar, como a poesia que nunca deixou de habitar a música de João Bosco. Parceiro de mais de uma centena de canções, o poeta permanece no centro de um repertório em que suas palavras continuam encontrando novas vozes. É uma presença que evoca outros intérpretes fundamentais da trajetória de João, entre eles Elis Regina, cuja voz foi determinante para levar muitas dessas canções ao imaginário afetivo do público.
Mais do que revisitar uma obra consagrada, Amigos Novos e Antigos revela por que ela continua tão atual. Samba, jazz, bossa, ritmos afro-brasileiros, crônica urbana, poesia e humor convivem em um repertório que nunca se deixou aprisionar por rótulos. A sofisticação harmônica do violonista encontra a força narrativa do compositor e a experiência de um intérprete que, mesmo depois de cinco décadas de carreira, segue apto à redescoberta.
O projeto visual do álbum ficou a cargo do fotógrafo Victor Corrêa e de João Ferro, em parceria com Julia Bosco (filha de João), que também assina como produtora executiva. “Amigos Novos e Antigos” marca uma novidade na trajetória do artista: é a primeira vez que ele grava um álbum concebido a partir de encontros com tantos convidados. A produção musical e os arranjos do trombonista Rafael Rocha, um dos expoentes da nova geração de músicos brasileiros, foram essenciais para conferir ao repertório uma sonoridade renovada.
É justamente aí que reside uma das grandes forças do álbum. Em vez de reproduzir gravações consagradas, os arranjos de Rafael Rocha redesenham as canções, preservando sua identidade e abrindo novas possibilidades de interpretação. O resultado é um disco em que o passado não aparece como peça de museu, mas como matéria viva, pronta para ganhar outras cores.
“Essas músicas nunca foram minhas apenas. Desde que nasceram, passaram a pertencer às pessoas. Agora voltam diferentes, carregando as histórias de quem as cantou, ouviu, gravou e viveu com elas. Acho bonito ver uma canção continuar mudando sem perder sua essência”, destaca João.
O álbum chega em um momento especialmente simbólico para o artista. Aos 80 anos, ele olha para uma trajetória extraordinária sem transformar a celebração em retrospectiva. Ao contrário: reúne amigos antigos e novos para provar que uma canção pode envelhecer sem perder a juventude. E que uma obra verdadeiramente brasileira continua se transformando cada vez que encontra uma nova voz, um novo instrumento ou um novo ouvido.
Amigos Novos e Antigos é uma celebração de João Bosco, mas também da própria capacidade da música de criar vínculos. Um disco sobre aquilo que permanece quando o tempo passa: as canções, as amizades, as histórias compartilhadas e a emoção de cantar novamente aquilo que nunca deixou de fazer sentido.
FAIXAS
1. “Odilê Odilá” (abertura) — Martinho da Vila
2. “Incompatibilidade de Gênios” — Chico Buarque e Gonzalo Rubalcaba
3. “Nação” — Hamilton de Holanda
4. “Toma Lá, Dá Cá” — João Bosco
5. “Casa de Marimbondo” — Cesar Camargo Mariano
6. “Amigos Novos e Antigos” — Bruna Black e Mestrinho
7. “Sinhá” — Caetano Veloso
8. “Jade” — Jota.Pê e Anat Cohen
9. “Perfeição” — Tiago Iorc
10. “Boca de Sapo” — João Bosco
11. “Siri Recheado e o Cacete” — Zeca Pagodinho
12. “Kid Cavaquinho” — Mart’nália
13. “Quando o Amor Acontece” — Mestrinho
14. “Memória da Pele” — Vanessa Moreno e Jaques Morelenbaum
15. “O Bêbado e a Equilibrista” — Pedro Mariano e Rafa Mariano
16. “Papel Machê” — Silva
17. “Corsário’ — Ivete Sangalo
18. “Odilê Odilá” (Encerramento) — Martinho da Vila
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